Nas fundas grutas de Eras esquecidas
tece a Música a tela destes contos
De choro e dor seu canto faz poesia
e na memória deixa vãos escombros.
Entre os eldar, à sombra esmaecida,
passaram auroras e verões serenos
em cujas noites orvalhadas, frias,
a lira um menestral tangia ao vento
Às praias de Eldamar e em Casadelfos
em Tirion sobre Tuna, e em Menegroth
Na oculta Gondolin, ou Eglarest
Nas vastos territórios de Finrod
a mesma litania, triste trova
ao calaquendi aedo inspirava
um canto fúnebre rememorava
a glória de outros tempos, sepultada.
E o canto assim principiava, ledo,
a recordar do que antes existira
da Luz de Prata e de Ouro nos limites
de Arda Desfigurada e caída.
"De Ezellohhar nos vastos verdes
cimos
a Luz de Aman outrora revoou,
luz que o ocaso toldar não pudera
e em nova primavera se elevou.
Como o murmúrio d´água o largo rio
gota a gota nutre desde a nascente
A voz da Kementári assim se ouviu,
um sussurar suave e persistente.
Fez-se o silencio universal das coisas
no tintilar em Valimar dos sinos
nos kelvar e olvar e os nobres Valar
lançou da quietude o manto infindo
Os pensamentos graves recolhidos
das moradas dos Ainur antes de Ea
ardeu-Lhe o espírito de Anor o fogo
a flamejar unidos hröa e fëa
Da Terra e do que nasce no seu ventre
das árvores soberbas às nimphelos
a mente de Yavanna atravessara
a Natureza virgem ao Eterno
Ó Yavanna, mãe da terra, aiya!
Ó Kementári sempre verde, aiya!
Saúdo os campos e o trigal dourado
o mallorn que a fronda altiva espraia
A voz que alenta e vive e se renova
no torvelinho das criadas formas!
E assim tão lentamente como a gota
daquele largo amanhecido rio
E assim tão sutilmente como o éter
a Kementári fez nascer dois fios
E cada fio se entretecia e mais
e mais torciam as fibras e tornavam
ao molde de dois caules verdejantes
- a cor da esperança que guardavam
A voz da Kementári se elevara
e agora ouviam o canto cristalino
os kelvar e olvar os nobres Valar
a ressoar em Valimar dos sinos
Canta, Yavanna, sempre viva, canta!
Canta o triunfo sobre Morgoth Bauglir
A luz dos calaquendi anunciada
nos brotos tímidos destas árvores
E então estupefatos contemplaram
do Mahanaxar de Arda os Poderes
viril crescer dos troncos em frondosas
maduras Árvores de copa verde
De muitos nomes belos conhecida
Telperion, Silpion, Ninquelotë
e mais que a língua dos atani cala
primeira em Valinor a florescer
Ó luz de diamante, ó luz amada!
das folhas verde escuras derramava
em lagos rasos de água consagrada
E todo o mundo, em prata, iluminava
Sua irmã Culúrien foi chamada
ou Malinalda de folhas álgidas
E ainda Laurelin, viçosa flama,
a flamejar os corações e as almas;
Depois de Silpion, à altura ergueu
que da fronte altiva dardeja a chuva
o solo amado de douradas flechas
e flores quentes e cálidas frutas
E o arco inteiro sideral das Horas
as Duas Árvores firmes cumpriam
e a Calacirya atravessa a luz
a dissipar as sombras que fugiam
Quando, porém, a Luz mais fraca ardia
ambas, no amor de Yavanna, se buscavam
e a luz mesclavam; o facho entretecia
no ar crepuscular da hora delicada
Ah! Memória, memória, só memória
é o que resta aos aedos dos eldar
Memória, memória, onde é tua glória?
Repouso em ti às orlas desse mar...
E no entanto ainda se o céu me enleva
avisto a estrela abençoada lá
De Earendil a silmaril na testa -
Luz das árvores mergulhada no ar..
E se do mundo me sobrevier
cansaço fundo, mas tão fundo pesar
que enfim aos olhos feche, perpetuos,
não mais desejo a Valinor voltar"
O aedo tange a lira ao vento à orla
de Belegaer, inescrutável. E mudo
numa prece, o canto ja findado,
roga ao destino a valië e a Ulmo
"Ó Ulmo, faça do mar meu ultimo
lar, o derradeiro do meu corpo, porto
em que a velha nau partida ao pórtico
soçobre, fria, em Suas águas turvas
Ó Varda Inflamadora! Ó Tintalë!
que na ultima visão da minha vida
me deixes ver a tua estrela amada
Mergulho nesse mar, ultimo lar
Ó Varda Inflamadora! Ó Tintalë!
Ah, eu vejo a Silmaril na noite escura!
Namarië, Namarië, Namarië..."
Os livros de Tolkien ainda não tiveram pouso nas minhas estantes, assim, embora faça meu estilo poesias que parafraseiam belas histórias, tenho uma dificuldade tecer um comentário mais aprofundado.
ResponderExcluirNo entanto, é inegável que Tolkien esculpiu uma história de fundo magnífica. Trazer a música (A Música dos Ainur) à origem de todas as coisas, foi o ponto alto de sua obra, na minha humilde e leiga opinião; além, sem dúvida, de criar todo um mundo mágico, dando asas a imaginação do leitor.
Esse poema, então, antes de tudo é, sem dúvida, para mim, um cartão de visita à obra de Tolkien; e, também, um lugar ao sol para aqueles que a conhecem.
Além disso, como toda ficção, ela arranha a realidade de forma indelével, “a tela destes contos/ De choro e dor seu canto faz poesia”. Ou em: Ah! Memória, memória, só memória/é o que resta aos aedos dos eldar/Memória, memória, onde é tua glória?/Repouso em ti às orlas desse mar... [...]
E se do mundo me sobrevier / cansaço fundo, mas tão fundo pesar/que enfim aos olhos feche, perpetuos,/não mais desejo a Valinor voltar". [...]Ó Varda Inflamadora! Ó Tintalë!/que na ultima visão da minha vida/me deixes ver a tua estrela amada/Mergulho nesse mar, ultimo lar/ Varda Inflamadora! Ó Tintalë!/Ah, eu vejo a Silmaril na noite escura!/Namarië, Namarië, Namarië..."
Por fim, chegou a hora de avacalhar!!!
Curiosamente, uma coisa que, realmente, me deixou feliz em ler essa poesia foi a fluidez das palavras que geraram, em mim, a sensação de uma sonoridade musical, na leitura, que me reportou, ainda que brevemente, a Música dos Ainur, ou como uma cantiga de um amigo de Eldamar.
p.s. até semana que vem!!! rs
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