quarta-feira, 17 de julho de 2013

Poema I

Nas fundas grutas de Eras esquecidas
tece a Música a tela destes contos
De choro e dor seu canto faz poesia
e na memória deixa vãos escombros.
Entre os eldar, à sombra esmaecida,
passaram auroras e verões serenos
em cujas noites orvalhadas, frias,
a lira um menestral tangia ao vento
Às praias de Eldamar e em Casadelfos
em Tirion sobre Tuna, e em Menegroth
Na oculta Gondolin, ou Eglarest
Nas vastos territórios de Finrod
a mesma litania, triste trova
ao calaquendi aedo inspirava
um canto fúnebre rememorava
a glória de outros tempos, sepultada.
E o canto assim principiava, ledo,
a recordar do que antes existira
da Luz de Prata e de Ouro nos limites
de Arda Desfigurada e caída.

"De Ezellohhar nos vastos verdes cimos
a Luz de Aman outrora revoou,
luz que o ocaso toldar não pudera
e em nova primavera se elevou.
Como o murmúrio d´água o largo rio
 gota a gota nutre desde a nascente
A voz da Kementári assim se ouviu,
um sussurar suave e persistente.
Fez-se o silencio universal das coisas
no tintilar em Valimar dos sinos
nos kelvar e olvar e os nobres Valar
lançou da quietude o manto infindo
Os pensamentos graves recolhidos
das moradas dos Ainur antes de Ea
ardeu-Lhe o espírito de Anor o fogo
a flamejar unidos hröa e fëa
Da Terra e do que nasce no seu ventre
das árvores soberbas às nimphelos
a mente de Yavanna atravessara
a Natureza virgem ao Eterno
Ó Yavanna,  mãe da terra, aiya!
Ó Kementári sempre verde, aiya!
Saúdo os campos e o trigal dourado
o mallorn que a fronda altiva espraia
A voz que alenta e vive e se renova
no torvelinho das criadas formas!
E assim tão lentamente como a gota
daquele largo amanhecido rio
E assim tão sutilmente como o éter
a Kementári fez nascer dois fios
E cada fio se entretecia e mais
e mais torciam as fibras e tornavam
ao molde de dois caules verdejantes
- a cor da esperança que guardavam
A voz da Kementári se elevara
e agora ouviam o canto cristalino
os kelvar e olvar os nobres Valar
a ressoar em Valimar dos sinos
Canta, Yavanna, sempre viva, canta!
Canta o triunfo sobre Morgoth Bauglir
A luz dos calaquendi anunciada
nos brotos tímidos destas árvores
E então estupefatos contemplaram
do Mahanaxar de Arda os Poderes
viril crescer dos troncos em frondosas
maduras Árvores de copa verde
De muitos nomes belos conhecida
Telperion, Silpion, Ninquelotë
e mais que a língua dos atani cala
primeira em Valinor a florescer
Ó luz de diamante, ó luz amada!
das folhas verde escuras derramava
em lagos rasos de água consagrada
E todo o mundo, em prata, iluminava
Sua irmã Culúrien foi chamada
ou Malinalda de folhas álgidas
E ainda Laurelin, viçosa flama,
a flamejar os corações e as almas;
Depois de Silpion, à altura ergueu
que da fronte altiva dardeja a chuva
o solo amado de douradas flechas
e flores quentes e cálidas frutas
E o arco inteiro sideral das Horas
as Duas Árvores firmes cumpriam
e a Calacirya atravessa a luz
a dissipar as sombras que fugiam
Quando, porém, a Luz mais fraca ardia
ambas, no amor de Yavanna, se buscavam
e a luz mesclavam; o facho entretecia
no ar crepuscular da hora delicada

Ah! Memória, memória, só memória
é o que resta aos aedos dos eldar
Memória, memória, onde é tua glória?
Repouso em ti às orlas desse mar...
E no entanto ainda se o céu me enleva
avisto a estrela abençoada lá
De Earendil a silmaril na testa -
Luz das árvores mergulhada no ar..
E se do mundo me sobrevier
cansaço fundo, mas tão fundo pesar
que enfim aos olhos feche, perpetuos,
não mais desejo a Valinor voltar"
O aedo tange a lira ao vento à orla
de Belegaer, inescrutável. E mudo
numa prece, o canto ja findado,
roga ao destino a valië e a Ulmo
"Ó Ulmo, faça do mar meu ultimo
lar, o derradeiro do meu corpo, porto
em que a velha nau partida ao pórtico
soçobre, fria, em Suas águas turvas
Ó Varda Inflamadora! Ó Tintalë!
que na ultima visão da minha vida
me deixes ver a tua estrela amada
Mergulho nesse mar, ultimo lar
Ó Varda Inflamadora! Ó Tintalë!
Ah, eu vejo a Silmaril na noite escura!
Namarië, Namarië, Namarië..."